O QUE É MAIS CARO, ALIMENTAR EGOS OU BOCAS?


José Luiz Tejon Megido
Eis ai uma bela questão. Os dados da FAO dizem que cerca de 30% de todo alimento produzido no mundo termina no lixo, sem ser consumido. Isso, desde as perdas no campo, passando por transporte, armazenagem, processamento, data de validade, e desperdício puro, como restos de comida jogados fora em restaurantes, fast foods, caterings, eventos e nas nossas santas casas dos churrascos do domingão.
A população que passa fome no planeta sempre orbita entre os 800 milhões e o um bilhão de famintos. E por que não se resolve doando comida? Porque, da mesma forma, distribuir e fazer chegar essa comida doada emperra na logística, na burocracia e na falcatrua de líderes nefastos que desviam doações e que não têm interesse algum em solucionar o drama da fome no mundo.
Por outro lado os gordos nunca foram tão numerosos nos países ricos e emergentes. Rapidinho, conforme adquirem um pouco a mais de renda no bolso, há o abandono das bases vegetais, e o sonho de consumo alimentar caminha para as proteínas, as carnes, os lácteos, as bebidas e também, na base da pirâmide, o fumo. Ricos gordos e mal alimentados. Muitos pobres magros e mal alimentados. E uma classe média tomada pela volúpia do consumir para poder ser, aparecer e um dia ter, que não sabe muito bem o que faz da vida na disputa íntima entre egos e bocas. Termina ganhando em volume o domínio do Deus ego. E, dá-lhe desperdício.
As únicas coisas realmente importantes no mundo são aquelas que não tem preço. Aquilo que não se pode botar preço. A saúde, a vida, a morte, o beijo do pai, o carinho curativo da mão da mãe, e a natureza. Com o espolcar de quatro nascimentos novos por segundo na terra, estaremos ultrapassando a barreira dos 9 bilhões de habitantes daqui a pouco, e todos loucos para ter, consumir e tentar ser. Será inviável viver com o desperdício e com o abuso da extração de recursos, não mais infinitos, da mãe terra.
Conclusão, a disciplina do ego, e a ética da solidariedade irão surgir, inapelavelmente através do verdugo chamado custo. Os bens tirados da natureza não serão simplesmente caros, eles não terão preço, e quando isso ocorrer, em algum momento da metade do século XXI, iremos domar a ira e a fúria gulosa dos egos humanos.
Iremos saber, como já sabemos, que é muito mais barato alimentar bocas do que egos. Mas, estes últimos só aprendem sob férrea determinação da ordem da natureza. Ao futuro cabe a distribuição do incômodo, e não o seu contrário. Preparai-vos para fechar a boca: do ego.
 Fonte: Revista Exame

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